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sexta-feira, 22 de abril de 2016

No impeachment, só 34 eleitos com os próprios votos

Na votação do último domingo, 477 dos 511 deputados votantes só chegaram à Câmara graças aos votos do partido, da coligação ou de colegas mais votados. Saiba quem se elegeu por conta própria


Nilson Batistan/Ag. Câmara
Quem votou em Tiririca ajudou a eleger outros dois deputados pelo PR. Humorista estreou no microfone após cinco anos de mandato
O eleitor que votou em um candidato a deputado federal que não se elegeu em 2014 pode não saber, mas ajudou a eleger parlamentares que votaram o impeachment na Câmara. E é possível que, em alguns casos, ele só tenha tomado conhecimento da existência desse congressista no último domingo (17). Dos 511 deputados que participaram da votação histórica, apenas 34 (veja a lista abaixo) tiveram votos suficientes para se elegerem sozinhos. Destes, 27 votaram a favor da abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff; os outros sete votaram contra. Além desse grupo, outros dois deputados que não estavam na Câmara no domingo também se elegeram com a própria votação Clarissa Garotinho (PR-RJ), que está em licença-maternidade, e Felipe Carreras (PSB-PE), que se licenciou do mandato para comandar uma secretaria estadual.
Os outros 477 votantes não tiveram voto suficiente para conquistar o mandato diretamente. Valeram-se da soma dos votos recebidos pelo partido ou por outros candidatos de suas legendas ou coligações, eleitos ou não. Esses parlamentares não alcançaram por conta própria o chamado quociente eleitoral, que é a quantidade necessária de votos para a eleição de um deputado em seu estado (ao fim da matéria, a lista por unidade federativa). A maioria deles chegou à Câmara de carona na montanha de votos recebidos por colegas de partido ou chapa. No Distrito Federal e em outras 11 unidades federativas, ninguém foi eleito apenas com a própria votação.
O quociente é definido pela divisão do número de votos válidos pela quantidade de vagas que cabe a cada estado. Vejamos o caso de São Paulo: os 20,99 milhões de votos válidos dados a candidatos à Câmara no estado divididos entre as 70 cadeiras da bancada resultou no quociente eleitoral de 299,9 mil votos. Ou seja, quem alcançou dessa marca em diante conseguiu se eleger sozinho. E, quem teve votos de sobra, ainda levou para Brasília outros parlamentares com votação modesta.
Russomanno e Tiririca
Dono da segunda maior votação da história da Câmara, com 1,5 milhão de votos em 2014, Celso Russomanno (PRB-SP) elegeu outros quatro deputados de seu partido: o cantor sertanejo Sérgio Reis, que recebeu 45.330 votos, o hoje primeiro-secretário da Casa, Beto Mansur, com 31.305, Marcelo Squassoni, com 30.315, e Fausto Pinato, com 22.097 votos. Primeiro relator do processo contra Eduardo Cunha no Conselho de Ética, Pinato trocou recentemente o PRB pelo PP.
Tiririca (PR-SP), o segundo mais votado da atual legislatura, com mais de 1 milhão de votos, garantiu a eleição de mais dois candidatos do PR: Capitão Augusto (PR), com 46.905 votos, e Miguel Lombardi (PR), com 32.080. Capitão Augusto é o único parlamentar que circula pela Câmara fardado e com condecorações militares no peito. No caso de Tiririca e Russomanno, as sobras foram rateadas entre companheiros de partido. Mas nem sempre é assim. Em diversos casos o beneficiado é de outra legenda, que faz parte da mesma coligação. Ou seja, o eleitor pode votar em um candidato de determinada sigla e ajudar a eleger o de outra sigla.
“Os votos computados são os de cada partido ou coligação e, em uma segunda etapa, os de cada candidato. Eis a grande diferença. Em outras palavras, para conhecer os deputados e vereadores que vão compor o Poder Legislativo, deve-se, antes, saber quais foram os partidos políticos vitoriosos para, depois, dentro de cada agremiação partidária que conseguiu um número mínimo de votos, observar quais são os mais votados. Encontram-se, então, os eleitos. Esse, inclusive, é um dos motivos de se atribuir o mandato ao partido e não ao político”, explica o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Partidos e estados
De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), os estados em que mais candidatos conseguiram alcançar o quociente eleitoral em 2014 foram São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com cinco cada. Quatro pernambucanos também obtiveram sucesso apenas com os próprios votos. Na Paraíba e no Ceará, foram três. Em Goiás e em Santa Catarina, dois. Amazonas, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Sergipe e Roraima tiveram apenas um deputado entre os que atingiram a marca. Nas demais unidades federativas, ninguém alcançou por conta própria o quociente eleitoral.
Na última eleição, ainda segundo o Diap, os partidos que mais tiveram parlamentares eleitos com os próprios votos foram: PSDB (6), PT (5), PMDB e PP (4 cada), DEM (3), PR, PSB e PSD (2), PRB, PSC, Psol, PTB, PTN e SD (1 cada). Em 2010, 36 deputados se elegeram sem a necessidade de contar com os votos da legenda ou coligação; em 2006, foram 32; e em 2002, 33.
Veja quem se elegeu ou reelegeu com os próprios votos (pelo partido em que estava em 2014):
DeputadoPartido *UFVotaçãoImpeachment
Arthur BisnetoPSDBAM250.896Sim
Lucio Vieira LimaPMDBBA222.164Sim
Genecias NoronhaSDCE221.567Sim
José GuimarãesPTCE209.032Não
Moroni TorganDEMCE277.774Sim
Daniel VilelaPMDBGO179.214Sim
Delegado WaldirPSDBGO274.625Sim
Gabriel GuimarãesPTMG200.014Não
Odair CunhaPTMG201.782Não
Misael VarellaDEMMG258.393Sim
Rodrigo de CastroPSDBMG292.848Sim
Reginaldo LopesPTMG310.226Não
Zeca do PTPTMS160.556Não
Delegado Eder MauroPSDPA265.983Sim
Pedro Cunha LimaPSDBPB179.886Sim
VenezianoPMDBPB177.680Sim
Aguinaldo RibeiroPPPB161.999Sim
Eduardo da FontePPPE283.567Sim
Pastor EuricoPSBPE233.762Sim
Jarbas VasconcelosPMDBPE227.470Sim
Christiane YaredPTNPR200.144Sim
Jair BolsonaroPPRJ464.572Sim
Eduardo CunhaPMDBRJ232.708Sim
Chico AlencarPSolRJ195.964Não
Leonardo PiccianiPMDBRJ180.741Não
ShéridanPSDBRR35.555Sim
Esperidião AmimPPSC229.668Sim
João RodriguesPSDSC221.409Sim
Adelson BarretoPTBSE131.236Sim
Celso RussomanoPRBSP1.524.361Sim
TiriricaPRSP1.016.796Sim
Pastor Marco FelicianoPSCSP398.087Sim
Bruno CovasPSDBSP352.708Sim
Rodrigo GarciaDEMSP336.151Sim
* Clarissa Garotinho (PR-RJ) e Felipe Carreras (PSB-PE) também superaram o quociente eleitoral. Os dois estão licenciados do mandato.
Veja o quociente eleitoral por estado:
UFVotos válidosVagasQuociente eleitoral
AC399.201849.900
AL1.384.5849153.843
AM1.658.1368207.267
AP386.084848.261
BA6.641.66639170.299
CE4.367.02022198.501
DF1.454.0638181.758
ES1.794.47010179.447
GO3.032.76017178.398
MA3.074.32118170.796
MG10.118.66653190.918
MS1.276.8938159.612
MT1.454.6128181.827
PA3.755.23917220.896
PB1.936.81912161.402
PE4.129.14725165.166
PI1.587.32310158.732
PR5.665.22230188.841
RJ7.615.66946165.558
RN1.580.8718197.609
RO798.475899.809
RR237.900829.738
RS5.896.50431190.210
SC3.376.53516211.033
SE981.3038122.663
SP20.996.61270299.952
TO733.225891.653

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