| No folclore árabe, os gênios, bons ou maus, às vezes escapam de lâmpadas ou garrafas. É o que parece estar acontecendo no universo parlamentar. Nas casas, gabinetes, restaurantes, no cantinho do plenário, deputados buscam apoios de outros deputados nessa singular eleição para um mandato tampão para a Presidência da Câmara, vaga com a tardia renúncia de Eduardo Cunha. São tantos candidatos que às vezes eles se confundem e pedem votos até de concorrentes. Nem é por descuido. Ninguém sabe direito quem estará na cédula eleitoral nessa quarta-feira (13). |
Lúcio andava meio distante, cuidando de outras tarefas depois do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Foi até lá para medir a temperatura. Sentiu logo que ela estava quente. Em um cara a cara com o deputado Heráclito Fortes ouviu que Geddel teria se metido na disputa interna sobre quem seria o candidato do PSB à Presidência da Câmara. Lúcio negou, mas não convenceu.
Mal se refez dessa contenda, chegou o deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG). Sem rodeios, ele colocou o dedo na ferida: a escolha do deputado Marcelo Castro (PI) como candidato do PMDB à Presidência da Câmara foi um explícito recado da insatisfação da bancada com o governo Temer. “Depois da derrota, agora o Palácio do Planalto nos chama para conversar. Poderiam ter evitado isso”.
Na sequência, passa pela mesa de Lúcio o deputado Fábio Ramalho, o Fabinho Liderança, e disse que também será candidato independente da decisão do PMDB. Depois, o próprio irmão do articulador político do governo chutou o pau da barraca. “Que decisão de bancada? vou votar em quem eu quiser”, desabafou Lúcio.
Curioso é que ao lado da mesa em que estava Lúcio, ouvindo as conversas, o deputado Miro Teixeira, decano da Câmara e hoje filiado à Rede de Marina Silva, calado, parecia refletir. Ele havia conversado com Marina sobre a possibilidade de entrar no páreo, não para pedir voto, mas para aproveitar a ocasião e fazer um discurso não dirigido aos deputados eleitores, mas, sim, à população, enojada com o comportamento dos políticos.
Miro pensava em se decidir na manhã desta quarta-feira. De repente, levantou-se e foi a seu gabinete preparar a sua inscrição na disputa pela Presidência da Câmara. Miro é o mais antigo deputado no exercício do mandato. Nem ele, nem quem veio antes dele, e provavelmente nem quem virá depois, teve, tem ou terá a oportunidade de assistir a eleição tão surreal de alguém que será de fato vice-presidente da República nos próximos seis meses. Cargo ainda mais chave nesse momento em que não dá para arriscar o que vai acontecer, até porque tem em curso uma imprevisível Operação Lava Jato.

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